sexta-feira, 24 de abril de 2020

Sol de dentro

Antes de entrar no trem, ela sorriu. Foi um alívio pessoal que vinha pela partida. As malas arrumadas com as roupas, sapatos, livros, e lembranças de um fragmento da vida vivida estavam ao seu lado. Estava vestida de azul, cor do céu, com um sapato confortável para aguentar a viagem. Antes de entrar, olhou para trás, via as casas, a gente, o cachorro mijando na lata de lixo onde o gato comia e viu histórias. Uma lágrima caiu no chão empoeirado fazendo um pequeno buraquinho molhado na terra. Quanto peso tinha a lágrima! Quanta coisa resumida em um pequeníssimo pedaço orgânico formado nas pálpebras. “É estranho sentir.” Pensou.
Entrou no trem, sentou num banco ao lado da janela sem sentir a falta das malas que deixou para trás. Para onde ia, não precisaria. Partiu sem avisar, deixando tudo para trás e se deixando. Depois de longo tempo dentro do trem, chegou a hora da descida. O destino ainda estava longe, precisava agora caminhar. Caminhava a beira de uma estrada empoeirada sem vida, sem verde, sem nada. Olhava para trás e podia ver próximo ás pegadas pequenas marcas no chão, iguais aquela de anteriormente marcada por lágrimas. Finalmente havia chegado numa casa pequena, sutil que tentou abrir com diversas chaves até encontrar a certa. Não deu nem tempo de abrir a porta e começou a chover. "O tempo fechou aqui fora também." Pensou. Pouco encharcada pela chuva, mas muito encharcada pelo medo, entrou naquele ambiente diferente e se imaginou nos próximos dias, meses e até anos. Parecia não haver esperança. Sobreviveria, mas com estragos, até que ao olhar pra janela da sala, percebeu uma luz entrar e iluminar parte do ambiente. Um raio de sol muito forte e suave ao mesmo tempo, que parecia driblar o tempo chuvoso e frio que estava do lado de fora. O coração se encheu de esperança. Limpou a casa toda, reorganizou os móveis, jogou o que era velho e inútil fora e a deixou mais alegre, e acolhedora.
Alguns meses se passaram e num dia meio nublado, saiu para buscar uma encomenda na estação central - a mesma em que havia chegado - e percebeu que por todo aquele caminho que havia trilhado, sem vida, sem verde, sem nada, havia além de muitas marcas de pegadas, muitas flores e plantas. Era tão agradável que as pessoas da região passavam para colher algumas das flores que brotavam ali, outras se contentavam a apenas irem sentir a mistura dos perfumes delas; crianças corriam brincando umas com as outras e com os insetos que ali habitavam... dava pra ver que era um lugar alegre. Na volta, colheu algumas das flores. Elas tinham um perfume bem familiar além de cheiro de terra molhada que a chuva traz num dia de sol. E chovia. Quando chegou em casa, as colocou num vaso de vidro em frente á janela onde o raio de luz vez ou outra visitava o local. Fitou-as bem por alguns segundos e suspirou tranquilamente. Pensou metaforicamente que se havia chorado naquele caminho, provavelmente regou as sementes daquelas plantas e flores. Refletiu nisso e logo sorriu percebendo mais uma vez que aquele raio de sol voltava para desta vez, iluminar as flores que estavam no vaso. O mesmo ocorreu dentro de si. Via que em meio as chuvas que surgiam em tempestades ou numa simples visita de chuviscos dentro dela mesma, agora sabia que havia um sol também lá dentro que mesmo dormindo à noite, aparecia quando a manhã chegava. Ou trazia as manhãs. Havia paz ali. Fora e dentro.
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